Programa tenta ‘unir’ onças e pecuaristas para diminuir ataques a rebanhos

Fábio Oruê| 19/04/2022- 21:17

O médico-veterinário explica que é totalmente possível que os animais silvestres vivam com qualidade e bem-estar próximo dos seres humanos (Dovulgação/IHP)

Programa Felinos Pantaneiros tem buscado ouvir produtores e ribeirinhos para acabar com o conflito pecuaristas x onças, no Pantanal Sul-Mato-Grossenses.

Os animais do rebanho são alvos fáceis de onças e a intenção é justamente evitar ou minimizar os ataques na região pantaneira. Usado em propriedade na região de Miranda, a intervenção reduziu ‘drasticamente’ os casos de predação do rebanho.

Esses ataques têm motivado produtores a matar os felinos para evitar prejuízos com a redução das cabeças de gado, porém, quem sai prejudicado é o meio ambiente.

Caso recente gerou a prisão de Benedito Nédio Nunes Rondon, homem que matou a tiros uma onça-pintada no Pantanal. A justiça determinou uma fiança de 413 salários mínimos e R$ 500 mil, além do uso de tornozeleira eletrônica, para soltar o fazendeiro.

Proteção às onças

O programa foi criado em 2016 e, além de atuar com a implementação de ações que promovem melhores práticas e harmonia entre meios de produção e conservação, é responsável por monitorar aspectos ecológicos das onças-pintadas e onças-pardas na região da Serra do Amolar.

Responsável pelo programa, o médico-veterinário Diego Viana explica que cada situação exige uma estratégia diferente. Por isso, a premissa do Felinos Pantaneiros é ouvir os envolvidos.

“Aqui, nossa principal ação é ouvir. Não temos uma opinião pré-formulada em relação a nenhuma situação. A partir do momento em que ouvimos, seja o produtor rural ou o morador ribeirinho, juntos, passamos a buscar uma estratégia para resolver a situação”, explica.

Atualmente, o programa tem usado duas estratégias para manter as onças longe do gado e, também, dos animais domésticos das famílias ribeirinhas.
A primeira delas é a cerca elétrica, usada, principalmente, para evitar que a onça ataque o gado.

A cerca é usada em áreas específicas da propriedade, onde é identificado maior índice de predação do rebanho. Em uma fazenda na região de Miranda, optou-se por usar o recurso para proteger as áreas de maternidade, por exemplo.

A segunda estratégia é o repelente luminoso. Na mesma propriedade rural em Miranda, foi feito um teste e, nos dois meses seguintes à instalação dos repelentes luminosos, não houve nenhum registro de ataque de onça ao gado. “Antes, o índice (de depredação) estava bem alto”, explica o médico-veterinário.
Com os ataques diminuindo, ameniza os prejuízos e, sendo assim, homem e animal convivem em paz.

Na beira do rio

O recurso também tem se mostrado eficaz na comunidade ribeirinha. Repelentes luminosos já foram instalados próximos às moradias de ribeirinhos que se sentem desprotegidos ou tiveram registro de ataque de onça a animais domésticos.

“São estratégias dinâmicas, ferramentas que temos usado e têm se mostrado eficazes. Assim, conseguimos reduzir o conflito do animal com produtor rural, moradores ribeirinhos. Conservamos a onça-pintada, o produtor rural diminui suas perdas e os ribeirinhos se sentem mais seguros e acolhidos”, explica Diego.

Porcos x Lavouras

A cerca elétrica também tem sido usada para evitar a aproximação dos porcos das áreas de lavoura. Com a medida, é possível reduzir perdas na produtividade agrícola também.

Outra frente de atuação do Felinos Pantaneiros é o manejo da fazenda. Com toda experiência adquirida durante o programa, os técnicos auxiliam os proprietários rurais na hora de definir o manejo, já pensando em reduzir possíveis conflitos de produção.

“Auxiliamos as propriedades no manejo da fazenda. A partir da análise do local e o conhecimento a respeito dos hábitos dos felinos, identificamos as áreas com maior potencial de predação”, afirma o médico-veterinário.

Convivência pacífica

O médico-veterinário explica que é totalmente possível que os animais silvestres vivam com qualidade e bem-estar próximo dos seres humanos.

“O Pantanal é exemplo disso. É um dos biomas mais bem conservados do planeta. Já são mais de 230 anos de ocupação humana e produção pecuária. Ou seja, é possível conviver, coexistir com a onça-pintada e toda a biodiversidade do Pantanal”, afirma.

Desde a segunda quinzena de março, o programa tem contado com o apoio da General Motors, que cedeu um veículo para as atividades de campo. Desde então, a equipe do Felinos Pantaneiros já rodou quase 1,1 mil quilômetros.

Neste período, foram feitas duas visitas a uma fazenda na região de Miranda, além de visita a parceiros de conservação, como Refúgio da Ilha, Delta do Salobra e Onçafari e a busca ativa por uma jaguatirica atropelada na BR-262.