Intolerância religiosa espalha terror nas aldeias indígenas de MS

Relatos de rezadores, que são perseguidos por acusações de bruxaria, revelam diversas faces da violência praticada nas aldeias de sete cidades

Marcos Morandi Publicado em 05/03/2022, às 08h16

Casa de reza de aldeia em Douradina foi incendiada no final do ano passado - Reprodução/Redes sociais

“O Diabo mora de noite e se esconde em algumas igrejas”. A fala é de uma rezadeira da Aldeia Jaguapiru, em Dourados, ao relatar os ataques sofridos pela Casa de Reza construída pela comunidade e que já foi alvo de incêndios criminosos e renasceu das cinzas mais de uma vez. Entretanto, os casos mais recentes envolvem indígenas de Amambai, Laguna Carapã e Douradina e deixam rastros que continuam aterrorizando gerações.

Além de disputas que envolvem questões agrárias, que parecem distantes de serem resolvidas, os incêndios em templos sagrados das etnias Kaiowá e Guarani revelam violações aos direitos humanos, já relatados em reportagens do Midiamax. O que chama atenção é que a maioria dos casos está ligada às proliferações de igrejas evangélicas e outras denominações que parecem brotar da terra vermelha.

Os relatos de violência contra rezadores indígenas remontam aos sombrios tempos da inquisição e ganham contornos quase que inimagináveis para os dias atuais. Diante de práticas repugnantes que ultrapassam as barreiras do tempo, um grupo formado por diversas entidades fez um mapeamento nestas três cidades, que revela que professar a cultura dos ancestrais virou risco de morte.

O levantamento é fruto de uma viagem de três dias, feita por membros da Kuñangue Aty Guasu (Grande Assembleia das Mulheres Kaiowá e Guarani), do OKA (Observatório da Kuñangue Aty Guasu), da DPU (Defensoria Pública da União), via DRDH (Defensoria Regional de Direitos Humanos) e a DPE-MS (Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso do Sul), por meio do NUPIIR (Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Povos Indígenas e da Igualdade Racial e Étnica).

“O objetivo deste percurso foi realizar o acompanhamento dos recentes casos de incêndios com indícios de crime provocados contra as casas de rezas (oga pysy), assim como agressões, ameaças, torturas e tentativas de homicídio contra nhanderu (rezadores) e feminicídio contra as nhandesy (rezadoras), vindo de membros de igrejas pentecostais”, diz a introdução do relatório apresentado pelas entidades.

Doutrina violenta

Segundo o documento, as inúmeras igrejas existentes em Mato Grosso do Sul e principalmente nas aldeias indígenas são extensões da sede nacional de uma delas, que fica em São Paulo. “Em outras palavras, os novos modelos de igreja que existem em territórios Kaiowá e Guarani são paulistas; pregam regras e uma doutrina violenta, principalmente sobre o corpo da mulher indígena, decidindo o que a mulher deve e não deve ser/seguir”, diz um trecho do levantamento.

“De acordo com fontes colhidas em territórios onde as casas de rezas foram incendiadas, há indícios de que os autores são membros e pastores dessas igrejas, bem como os autores de falas pejorativas, racistas e violentas em relação às casas de rezas. Eles usam o discurso de que a casa de reza, o nosso espaço tradicional, é um local do mal e que precisa ser exterminado, criando um isolamento entre o tradicional e o mundo karai pentecostal”, denuncia o relatório.

No levantamento feito pela Kuñangue Aty Guasu, com apoio do MPF, DPU e também da DPE-MS, há referências relacionadas de novembro de 2020 a fevereiro de 2021, durante a construção do Mapa da Violência em campo. Naquele período foram registrados 21 casos de espancamentos, torturas, violências psicológicas e perseguição de mulheres rezadeiras, nhandesy, que praticam o cuidado tradicional.

Foto: Marcos Morandi, Muidiamax

Rezas e ‘bruxarias'

“Elas foram julgadas em público, suas casas foram queimadas, foram expulsas da comunidade, humilhadas, condenadas como ‘bruxas’ e ‘feiticeiras’”, segundo o documento, que também ressalta nominalmente algumas vítimas do rolo compressor da intolerância religiosa, como a nhandesy dona Nilza, moradora em uma aldeia de Amambai, que foi ameaçada por praticar o modo tradicional de ser da sua cultura.

“Através da reza Kaiowá e Guarani e a medicina natural/tradicional, ela cuida de outras nhandesy e nhanderu do entorno de Amambai e de outras regiões do nosso povo, quando os mesmos se encontram doentes: ela é uma hechakary (rezadeiras que realizam as curas através da reza, com uma conexão maior com os grandes guardiões espirituais, como Jary Guasu e Ñande Ramõi)”, diz o documento.

Kuña Yvoty é uma das rezadeiras do povo Kaiowá e Guarani que a Kuñangue Aty Guasu acompanha diretamente desde 2017. Ela vive em Guapo’y, na Reserva Indígena de Amambai.  É a primeira a ter uma casa de medicina tradicional em Mato Grosso do Sul.

Lucia Assis Morais, de 79 anos, também da etnia Guarani e Kaiowá, faz as práticas dos seus conhecimentos tradicionais de plantas medicinais, partos com gestantes, curas, cantos e rezas na língua dos ancestrais. Isso fez com que ela se tornasse muito respeitada pelos acolhimentos a outras mulheres.

Acusada de bruxaria por parentes evangélicos por praticar sua religiosidade indígena e ter uma casa de reza tradicional, ela busca apoio em uma rede de solidariedade por justiça socioambiental e de gênero. Um de seus agressores é o cunhado e vizinho, que já foi condenado por violência doméstica contra ela. 

“Venho dizer a vocês que estou sofrendo por conta do desrespeito à minha reza. Aqui dentro da aldeia eu sofro. Estão favorecendo o homem que me agride, acobertam o agressor. Eu choro a vocês pedindo ajuda. As pessoas me perseguem, me chamam de macumbeira, bruxa, macaca, bugio, mas eu não faço mal a ninguém. Estou sofrendo muito. Tirem ele de perto de nós. Eu preciso de ajuda para tirar o agressor de perto da minha casa, onde eu vivo”, clama D. Lulu, como é conhecida.

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Os dados colhidos pela Kuñangue Aty Guasu também mostram que nos últimos oito anos, além das perseguições aos líderes espirituais das aldeias, algumas delas com ameaças de linchamento público, as casas de reza também têm sido os principais alvos da intolerância. Até o momento, 16 delas foram incendiadas em Amambai, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Dourados, Douradina, Laguna Carapã e Tacuru.

Há fortes evidências de que todos os ataques tenham ocorrido a mando de pastores e membros mais fanáticos das próprias comunidades indígenas que foram 'arrebanhados' pelas igrejas. “Seguidores dessa igreja são apontados pelas vítimas como um dos principais atores do racismo religioso que praticam a intolerância religiosa e incitam a queima das casas de reza”, indica o relatório.

Foto: Marcos Morandi, Midiamax

Renascida das cinzas

Destruída em julho de 2019 após um incêndio criminoso, a Gwyra Nhe’engatu Amba, que significa “Lugar onde o pássaro da Boa Palavra tem Assento”, considerada um símbolo centenário da cultura indígena, foi reaberta no dia 15 de agosto de 2020. A Casa de Reza e Cultura fica na Aldeia Jaguapiru da Reserva Indígena de Dourados, em Mato Grosso do Sul.

Com a voz ainda carregada de tristeza pela violência contra o patrimônio cultural e religioso dos Guarani e Kaiowá, Getúlio de Oliveira Juca, um dos guardiões de objetos sagrados, juntamente com a esposa Alda Silva, também rezadora, relata que na época do incêndio, pouco mais de 20 minutos de fogo foram suficientes para destruir o lugar. Segundo ele, boa parte do que estava ali foi devorada pelas chamas.

O rezador também conta que, entre os objetos perdidos, estão alguns cocares (jeguaka), vestes (ponchito) e outros instrumentos (mbaraka e xiru) que eram utilizados por mulheres e homens nas cerimônias sagradas como, por exemplo, a cerimônia de atribuição de nome aos meninos e meninas.

“Vi um homem branco saindo de dentro da casa e correndo para o meio do milharal. Mas não deu para identificar”, afirmou Getúlio. Os bombeiros foram acionados, mas quando chegaram ao local, já estava tudo destruído.

O ancião lembra que o crime ainda não foi solucionado pelas autoridades. Conforme ele, ainda existem muitas perguntas que ficaram sem repostas sobre esse ato violento contra as tradições indígenas.

Entretanto, apesar dos ataques sofridos em sua centenária trajetória, “a Casa sempre esteve aqui, mesmo que ausente fisicamente, mas viva dentro dos nossos corações e na memória de quem dela recorreu para espantar alguns males, principalmente na escuridão”, relata uma indígena que também cobra providências das autoridades.

Foto: Marcos Morandi, Midiamax

Templos e fanatismo

Durante uma reunião realizada em março de 2020 na Aldeia Jaguapiru, ela foi umas mulheres que reclamaram contra a falta de segurança na Reserva. Segundo relatos dos moradores da Reserva, durante o dia o clima de tensão também é constante, mas pouco comparável com o que pode acontecer no escuro.

Durante esse período de pandemia, as influências das doutrinas evangélicas nas aldeias de Mato Grosso do Sul ficaram ainda mais evidentes. As dificuldades continuaram batendo às portas das casas, que na maioria delas ainda abrigam até 9 pessoas em um único cômodo. “Existem casos em que as meninas dormem com os meninos, devido às condições de precariedades de muitas famílias”, relata uma professora indígena que prefere não se identificar.

Se por um lado faltam moradias e água até para beber, por outro sobram templos evangélicos e grupos de fanáticos negacionistas. Levantamentos feitos por estudiosos no assunto revelam que somente nas aldeias de Dourados existem mais de 80 igrejas das mais diversas denominações. “Todo dia praticamente surge um templo novo aqui e em outras comunidades”, conta a educadora.

Foto: Reprodução/Redes sociais