Seleção brasileira celebra os 50 anos da conquista do Tri mundial em 1970

Craques como Pelé, Carlos Alberto, Tostão, Gerson, conseguiram no México vencer seis partidas
21/06/2020 17:27 - Estadão Conteúdo

Uma seleção que encantou o mundo. Um esquadrão marcado na história. Os elogios nunca são exagerados para definir a campanha do Brasil na Copa do Mundo de 1970. Mais do que ter vencido a competição no México e conseguido erguer pela terceira vez a taça de uma Copa do Mundo de futebol, o grupo de craques conseguiu ficar marcado para sempre na história da bola como um dos melhores times de todos os tempos. Sob o comando do treinador Mário Jorge Lobo Zagallo, craques como Pelé, Carlos Alberto, Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho, Clodoaldo, e de jovens como o então goleiro do Palmeiras Emerson Leão, que se juntou aos colegas de posição Félix (titular) e Ado, conseguiram no México vencer seis partidas em seis jogos. O Brasil alcançou a posse definitiva da Jules Rimet, troféu que só seria entregue a quem vencesse pela primeira vez três edições da Copa, e ainda ensinou o mundo como jogar bonito, com velocidade, ocupação de espaços, transição defesa, meio e ataque, alternância de posicionamentos. Uma aula de como se jogar futebol até nos dias de hoje. Confira abaixo depoimentos de alguns dos campeões sobre os bastidores da conquista: JAIRZINHO, atacante da seleção brasileira em 1970 "Dentro da minha mente, a primeira coisa que me vem à cabeça é o trabalho extraordinário realizado por todo mundo, no qual pude contribuir para que o Brasil ficasse com a Taça Jules Rimet em definitivo. A comissão técnica era de altíssimo nível, com Zagallo, Coutinho, Parreira... Eram pessoas altamente qualificadas e preparadas. Eles montaram um cronograma de trabalho e, pela primeira vez, o Brasil teve um esquema de preparação com três meses de duração. Treinávamos seis horas por dia, sendo três pela manhã e três à tarde. Pela primeira vez a seleção jogou com cinco camisas 10, todos jogadores de alto nível. O mundo todo aplaudiu a qualidade do futebol brasileiro, ofensivo e de muita técnica. Não tivemos nenhum problema em termos de esquema tático, coletividade ou falta de amizade. Todo mundo se enquadrou dentro daquela filosofia. Até hoje está escrito nos anais do futebol que o time de 70 foi a melhor seleção de todos os tempos. Zagallo montou uma seleção que nunca mais ninguém vai conseguir fazer. Aquele título foi um feito maravilhoso do futebol brasileiro. Nós, jogadores, tínhamos muitas reuniões sem a presença da comissão. Lembro que, na semana que ia começar a Copa, pedimos permissão ao Zagallo para fazer uma reunião só entre nós, jogadores, e um dos pontos que conversamos foi sobre deixar a vaidade e a competição entre nós de lado para colocar em primeiro plano o Brasil porque isso seria bom para todos nós e o futebol brasileiro, é claro. Essa pandemia melhorou a comunicação do futebol brasileiro com a juventude, já que antes da covid-19 as pessoas só comentavam, mas não reprisavam os jogos de 70, como foi feito agora. Para os mais jovens é uma grande aula. Para aqueles que só tinham ouvido falar, mas nunca tiveram a oportunidade de assistir às partidas, agora podem tirar as próprias conclusões se a seleção de 70 foi ou não a melhor de todos os tempos. Quem quiser ser jogador de futebol pode gravar os nossos movimentos, tanto na parte tática, como na individual. A Copa de 70 é uma aula gratuita de futebol " CLODOALDO, volante da seleção brasileira em 1970 "A memória mais querida que tenho daquela Copa é da convivência do grupo. Todos nós tínhamos um ambiente muito bom. Claro que a gente era adversários nos clubes aqui no Brasil, mas em prol da seleção brasileira conseguimos deixar de lado algumas diferenças e ter um clima bom, de amizade e companheirismo. Antes de irmos para o México, ficamos treinando no Rio de Janeiro em um local simples, chamado Retiro dos Padres. Para passar o tempo, a gente se reunia para ouvir música e tocar violão. Eu e o Rivellino sempre gostávamos de jogar sinuca também. Para se divertir, tinha uma aposta nossa. Quem perdesse no jogo, teria de levar o companheiro nas costas até o quarto. Era uma forma de se divertir. No México, a nossa preparação foi bem detalhada. Fizemos um trabalho na altitude, em uma cidade chamada Guanajuato. Isso nos ajudou muito na parte física. Pode ver que vários gols nossos na Copa foram marcados no segundo tempo. Para dividir os quartos, o Zagallo pensou muito bem e fez algumas mesclas. Eu, que era novo e só tinha 20 anos, tive como companheiro de concentração o 'Capita' (Carlos Alberto Torres). Ele não era o mais velho do time, mas por ser um dos nossos líderes, me ajudava bastante. Lembro que para passar o tempo no hotel lá no México, eu e o Carlos Alberto ficávamos conversando por horas, até bem tarde. Várias vezes ele falava com segurança que a gente seria campeão. Também tinha bastante o assunto sobre como seria o próximo jogo e até como se preocupar com algum adversário em específico. O grupo tinha várias figuras muito queridas. O Brito era o cara mais divertido. Sempre contava piadas e tirava sarro. Até hoje nós, jogadores, mantemos essa amizade. Recentemente a gente se encontrou em um evento na CBF para inaugurar a estátua do Pelé. Teve um almoço e nós ficamos conversando por muito tempo. De vez em quando até hoje troco mensagens com alguns. A tecnologia nos ajuda a continuarmos perto e sempre lembrando esse período incrível que foi a Copa de 1970." RIVELLINO, meia da seleção campeã mundial em 1970 "Ao falar da Copa de 70 vem muita coisa na cabeça. Saímos do Brasil totalmente desacreditados por todo mundo. Tínhamos bons jogadores, mas naquela época era difícil ter informações dos adversários. Sabíamos, por exemplo, que a Inglaterra tinha sido campeã em 1966 e era um bom time, mas não tínhamos muito mais que isso. Ficamos dois meses treinando e algo que me chama a atenção até hoje era o quanto o Pelé, a maior referência do futebol na história, tinha de energia positiva, de vontade de vencer... Ele era o primeiro da fila e nunca reclamava de nada. O cara era bicampeão do mundo, chegava em nós e falava: 'Olha aqui, moleque, você não sabe o que é ser campeão do mundo.' Em relação à convivência, este elenco me marcou bastante também, mas por um motivo diferente. Quando ganha, falam que o grupo é unido e mais aquela coisa toda .. Essa coisa de grupo unido para mim é bobagem. Tem de ser unido dentro de campo. Eu corro por você hoje, mas amanhã eu não preciso sair para jantar contigo. O grupo tinha muito esse pensamento. Não importava se a gente se dava bem ou não fora de campo, o que importava era lá dentro. Havia problemas no elenco, claro, mas isso ficava fora. O gol do Carlos Alberto (na final, contra a Itália) é um exemplo dessa união em campo que eu digo. Falar em Copa do Mundo de 70 e na primeira coisa que vem na minha cabeça é aquele gol. Foi o time inteiro tocando a bola. Coisa linda. Mas não posso ser hipócrita e ignorar o talento individual daquele time. Hoje ficam com papo de 'Fulano e Beltrano fazem a mesma função e não podem jogar juntos.' Isso é bobagem! Cara bom tem que jogar junto, sim. Jogar com craque é muito mais fácil, porque ele pensa diferente. Eu sabia onde o Pelé queria a bola e vice-versa. Tanto que a gente nem precisava marcar. Na verdade, até hoje eu não sei marcar. Quem fazia isso no time era o Corró (Clodoaldo), mas mesmo assim, com muita técnica. Nós não marcávamos, nós fazíamos ocupação de espaço. Nosso time era muito focado. Impressionante. Alguns jogadores tinham problema um com o outro, mas no geral, a gente brincava e tudo mais e na hora do jogo, era foco total. Não precisava dessas coisas de colocar fone de ouvido para demonstrar foco. Antes do jogo, a gente era do samba. Brito, Gerson, Jairzinho e Marco Antônio eram os caras que tocavam e faziam o samba. Era uma bagunça, até a hora que entrávamos no vestiário e o jogo seria assunto. Aí a coisa mudava. Falando em jogo, aquele com a Inglaterra foi o mais difícil, sem dúvida. Eles poderiam ter empatado ou a gente marcar 2 a 0 e seria justo de qualquer forma. O Félix e o Banks pegaram demais. Pelo amor de Deus! Lembro que no fim do jogo, o técnico deles colocou duas 'torres gêmeas' no ataque e apostou no cruzamento. Que sufoco! Teve uma jogada, pode olhar no vídeo, que o Everaldo tentou cortar e deu errado. A bola sobrou para um dos grandalhões que havia entrado, mas a bola estava no chão e como ele era muito limitado, conseguiu chutar para fora. Me lembro que torci o tornozelo neste jogo e o Zagallo decidiu me deixar no banco contra a Romênia, para me poupar, já que estávamos classificados. Fiquei bravo, mas respeitei.", finalizou.