Segurança e limpeza fazem parte das atrações turísticas na Nova Zelândia

Eu andava no meu Nissan Sunny alugado pela Rota 6 da Ilha Sul da Nova Zelândia, quando me deu um sono forte, do tipo dormir-no-volante. Pensei o que sempre penso nessas situações (o que minha mãe teria orgulho de saber se lesse português): “Vou parar e descansar. Seria ruim me matar e, pior ainda, matar outro motorista e sua família inocente.“
Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária 
- Leia também: Surpresas inesquecíveis pela estrada do mundo esquecido Só que essa lógica não funciona muito bem na Rota 6, porque nesse pedaço de asfalto bucólico e pitoresco não há quase mais ninguém para matar. Eu não tinha visto outro carro, nem outro ser humano, há muito tempo. Se eu fosse matar alguém, as vítimas mais prováveis teriam sido as infinitas ovelhas que ficavam saboreando o pasto ao lado da estrada, como alvos num videogame macabro. Mas ainda assim parei na pousada mais próxima: a Castle Hill Lodge, do casal ultrassimpático Mark e Sharon Ford, com quatro quartos numa casa térrea, simples mas moderna, ao pé do morro “Castle Hill” e ao lado de um pasto de (só para confirmar o óbvio) ovelhas. Foi na Nova Zelândia que filmaram a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Filme é filme, mas às vezes a Nova Zelândia real parece de fantasia também. E, detalhe, muito menos violento do que o mundo inventado por J.R.R. Tolkien. A taxa de crimes é mínima – o índice de assassinatos é muito menor do que o dos Estados Unidos e muito, muito, muito menor do que o do Brasil. Outros crimes também não são frequentes e em 99% do país o risco de ser assaltado é inexistente. E há uma eficiência impressionante dos serviços públicos: os ônibus urbanos chegam quase sempre no minuto programado e os neozelandeses (pelo menos os que conheci) se declararam muito satisfeitos com o sistema público de saúde.
Não faltam reservas naturais na Nova Zelândia Não faltam reservas naturais na Nova Zelândia 
- Leia também: Surfando no sofá alheio, em Istambul Um exemplo: a polêmica da qual mais ouvi falar durante os meus 10 dias no país era sobre umas novas regras de trânsito que acabam de entrar em vigor. Uma delas, se consigo explicar, tratava de quem tem o direito de seguir primeiro num cruzamento em forma de T quando um carro chega do lado esquerdo querendo virar à direita e outro carro chega na rua de baixo querendo virar à direita. Não entende? Eu também não – para mim já foi difícil demais lembrar de ficar do lado esquerdo da rua, como na Inglaterra. (A Rainha Elizabeth II ainda aparece nas moedas neozelandesas e os carros ainda dirigem do lado esquerdo. Não sei qual me pareceu mais absurdo) Mas é pouca a possibilidade de um cidadão neozelandês não entender: cada casa recebeu um panfleto pelo correio explicando as novas regras, e o governo fez até um site e abriu um número com ligação gratuita para quem tivesse dúvidas. Ah, também tinha um jingle que rima: “Top of the T goes before me.” (Ou seja, o carro no topo do T vai primeiro) Vamos inventar uma rima que ajudaria o trânsito paulistano ou carioca a funcionar melhor? Que tal “Não sequestre, ou mate pedestres?”. Mark e Shannon não são neozelandeses. São ingleses que se mudaram para a Nova Zelândia em busca de calma depois de os dois trabalharem um tempo como policiais na cidade inglesa de Kent. A Shannon gerencia a pousada, e o Mark foi recrutado a trabalhar como policial na região. Claro que perguntei para ele quais eram os crimes mais comuns que ele encontra. “Quase não tem”, me disse. “As chamadas mais comuns são para acidentes de trânsito. Tipicamente, turistas do seu país dirigindo do lado errado da rua.”
Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia 
- Leia também: Noites quentes e dias agitados no inverno da Islândia Um país ser tranquilo e funcionar bem e ter muitas ovelhas não significa que é perfeito. Os maori, o povo polinésio de cor negra que chegou na ilha uns 350 anos antes do primeiro explorador branco, vive a mesma praga que afeta povos indígenas em outras partes do mundo: alcoolismo, pobreza, educação inferior. Uma atração turística é visitar um povoado maori e ver as danças tradicionais, blábláblá, mas é só desviar um pouco do tour para enxergar maoris jovens e sem emprego sentados do lado de fora da casa bebendo cerveja. Tem outros pobres também. Quando visitei uma comunidade de imigrantes em Auckland (a maior cidade do país), mendigos na rua me pediram dinheiro de forma não tão diferente do que nas ruas do Rio. Mas o sentido de sossego e tranquilidade é inegável, em parte o resultado de só 4,4 milhões de pessoas habitarem um país desenvolvido do tamanho do Equador (que tem 15 milhões de habitantes). Tem tantas “Reservas Naturais” demarcadas que vira até cômico: comecei a pensar que o governo pouparia muito dinheiro se, em vez de colocar placas em cada “Reserva Natural”, erguessem placas de “Não-Reserva Inatural” nos poucos lugares que não o são. Mas era uma piada de inveja. Tantas belezas naturais que quase nem dá para anotar todas as que vi, nem falar das muitas que não davam tempo de ver. Vou dar só três exemplos com fotos.
O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias 
Milford Sound – só descoberto pelo homem branco em 1812, Milford Sound é um fiorde – uma entrada do mar esculpida dramaticamente nas montanhas por atividade glacial. Um dos lugares mais molhados do mundo, a área recebe quase sete metros de chuva por ano, o que produz centenas de cachoeiras temporárias cada vez que chove e às quais os turistas podem visitar em cruzeiros de uma hora ou até um dia. Por isso é bom visitar num dia de chuva, e melhor ainda (e mais seco) num dia ensolarado pouco depois da chuva.
Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas 
Coromandel Peninsula – lá na Ilha Norte tem uma península pequena que quase nem é tão dramática quanto o Milford Sound, mas ganha em charme o que perde em grandeza. Pode-se comer os melhores (e maiores) mexilhões que já provei no Coromandel Mussel Kitchen ou visitar cidades históricas criadas durante as corridas do ouro do século 19, mas eu gostei mais de dois lugares com belezas naturais. Um deles é a Hot Water Beach, uma praia onde é só escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas e criar um Jacuzzi natural ao lado do mar frio. (A melhor parte não é descansar nas águas quentes mas ver tantos adultos brincando com pá de criança) A apenas só nove quilômetros dali tem (mais) uma reserva natural que, se estacionar o carro e andar a pé por uns 40 minutos, chega-se à praia mágica de Cathedral Cove, um semicírculo de areia esculpido nos rochedos, um processo que quem-sabe-como deixou uma rocha no meio que parece uma esfinge. Numa praia tão linda e nem tão longe da maior cidade do país devem chegar muitas pessoas, né? Não na Nova Zelândia: a tarde em que eu fui estava totalmente vazia até eu chegar; quando eu estava indo embora uma família descia as escadas para me substituir. “A praia é toda sua”, lhes disse.
O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística 
Trem “TranNZalpino” por Arthurs Pass – Apesar de ser oficialmente mais uma rota dos sistema de trens nacionais, o trem que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch é principalmente uma atração turística. (Os neozelandeses que tomam o trem porque precisam chegar de uma cidade para a outra até existem, mas são poucos) Foi lá no trem que vi mais um exemplo da falta de medo do crime que existe no país. Dois turistas confiavam tanto nos outros passageiros que deixaram suas Canons (que valiam pelo menos R$ 5 mil cada) na mesa quando foram, sei lá, ao toalete ou comprar algo para comer. O momento me pareceu tão extraordinário que eu tirei fotos. Até a “grande” cidade de Auckland, com mais de um milhão de habitantes chama a atenção com detalhes inesperados. O exemplo que mais me surpreendeu: as ruas da grande cidade de Auckland são tão limpas que boa parte dos residentes sai de casa sem sapatos. É, sem sapatos. Sem chinelo. Sem meias. Ou seja, descalços – e não para ir para praia com fazem alguns poucos surfistas no Rio. Para fazer compras no supermercado. Para comer em um restaurante. Para sair com amigos.
 Tente isso no Brasil deixe duas máquinas de valor de R$5000 cada no trem e ver o que acontece Tente isso no Brasil: deixe duas máquinas no valor de R$ 5 mil cada no trem para ver o que acontece 
Leia também: Dois por Seth em Beirute Isso me deixou pensando: tudo bem que não tem lixo, nem vidro, nem nada nas ruas. Mas, ainda assim, não dá para não sujar os pés… Será que quando uma criança chega em casa a mãe grita “Calce os sapatos antes de entrar”, em vez do contrário? Ah, e que tal um país onde os cidadãos admiram e respeitam a polícia como uma organização eficiente e incorruptível? Pois a pesquisa anual da revista “New Zealand Management” aponta que, há vários anos consecutivos, a polícia nacional é o departamento mais “respeitável” do governo. Uma noite, na pousada rural Berwicks Hill (onde paguei só 70 dólares neozelandeses – ou seja R$ 107 – por noite), eu estava jantando com os donos Eileen e Roger Berwick e um casal de ingleses que também estava hospedado lá quando o inglês, que tinha trabalhado por muito tempo na Índia, começou a contar sobre as propinas que teve de pagar à polícia indiana em várias ocasiões. Eu contei algumas histórias parecidas do México e da República Dominicana. O Roger, um conselheiro de saúde mental aposentado, que agora cria vacas e ovelhas numas terras lindas ao lado do mar, nos olhou incrédulo, como se fosse impossível imaginar um policial corrupto.
Roger Berwick, à esq., dono (com a esposa) da pousada Berwicks Hill, quase não acreditou as histórias da corrupção na polícia de outros paises que a gente contou durante o jantar 
Então, para quem procura uma terra sossegada, segura e linda para tirar umas férias, seria difícil pensar em melhor escolha do que a Nova Zelândia. Mas não sei como seria mudar para Nova Zelândia. Mais seguro, mais tranquilo, mais lindo, com certeza. Mas talvez mais chato também. No mínimo, seria necessário ter de se acostumar a rir menos, dançar menos, e comer menos arroz e feijão do que no Brasil. Nenhum país é perfeito, e imagino que a grande maioria dos brasileiros, se fossem viver na Nova Zelândia, mudariam de volta dentro de alguns anos. As ovelhas brasileiras, porém, passariam o resto dos seus dias muito felizes.