Pantanal perde 68% de áreas alagadas em 30 anos e seca já causa impactos na reprodução de peixes

Especialistas apontam causas e mudanças para evitar catástrofe ainda maior

Gabriel Maymone Publicado em 16/11/2021, às 15h00

Pantanal enfrenta uma das piores secas da história - Gustavo Figueiroa / SOS Pantanal

Pesquisa divulgada pelo MapBiomas (Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil) mostra que o Pantanal é o bioma brasileiro que mais perdeu superfície alagada desde 1985. De lá para cá, houve diminuição de 68% da área coberta por água e Mato Grosso do Sul é o estado mais afetado pela seca.

Se em 1985 o Estado tinha mais de 1,3 milhão de hectares cobertos por água, em 2020 eram apenas pouco mais de 589 mil hectares. Essa redução se deu basicamente no Pantanal, mas toda a bacia do Paraguai perdeu superfície de água.

Além de mudar a paisagem pantaneira, a diminuição de áreas alagadas impacta na natureza e até na reprodução de espécies aquáticas, explica o biólogo José Milton Longo.

"Não vão se formar lagoas e baías para a reprodução de determinadas espécies de peixes. Isso vai causar impacto negativo quanto à cobertura vegetal e reprodução das espécies", explica o especialista.


Mapa mostra superfícies alagadas em Mato Grosso do Sul

Causas

A causa dessa diminuição é a seca histórica que vem se agravando nos últimos anos. Mas o que está por trás dessa seca é que levanta discussões. Especialistas apontam que tudo é consequência de desajustes climáticos, mas que foi agravado no Pantanal por conta do desmatamento e uso excessivo de fogo para queimar pastagens.

Além disso, os pesquisadores responsáveis pelo MapBiomas afirmam que a perda da superfície de água natural por causa da água armazenada em estruturas construídas pelo homem tem consequências preocupantes na alteração do regime hídrico, afetando a biodiversidade e a dinâmica dos rios. O Pantanal é um desses exemplos, com a construção de hidrelétricas nos rios que formam o bioma. Porém, há dezenas de outras barragens projetadas para esta região, com pouca contribuição para o sistema elétrico e um grande potencial de impactos.


Pantanal sofreu com incêndios em 2020 e 2021

Há esperança de reversão?

Os números revelados pela pesquisa servem para levantar debate sobre conscientização e quais as ações necessárias para evitar uma tragédia ainda maior no futuro. “O primeiro passo é ter um diagnóstico do problema na escala de bacias hidrográficas para identificar quais fatores estão comprometendo a disponibilidade de recursos hídricos. Segundo, é possível desenvolver um plano de ação multissetorial para mitigar e até mesmo reverter o problema. Mas, não podemos nos esquecer que boa parte da solução vai depender em reduzir as emissões de gases estufa para controlar o aumento da temperatura global”, explica o coordenador do MapBiomas Água, Carlos Souza Jr.

O biólogo José Milton complementa, explicando que somente o restabelecimento das condições normais do clima é que podem salvar o bioma. "Teria que chover muito e regularmente nas cabeceiras dos rios que drenam para o Pantanal, principalmente na principal artéria do Pantanal, que é o Rio Paraguai".

Falando em Rio Paraguai...

O maior rio do Pantanal, o Paraguai é o 'termômetro' da seca no bioma. Este ano, o gigante atingiu o 3º pior índice da história, marcando 60 centímetros abaixo de zero.

Apesar do bom volume de chuvas em outubro e novembro, o Paraguai continua com índices negativos e permanece em alerta para estiagem, marcando 20 centímetros abaixo de zero. Para se ter uma ideia, o Rio Paraguai entra em alerta de estiagem quando atinge a marca de 52 cm (positivo), ou seja, ainda precisa subir 72 cm para entrar no nível considerado normal.

Bancos de areia chegaram a aparecer em vários trechos do Rio Paraguai

Boletim do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) prevê chuvas abaixo da média ao longo do verão para grande parte do Pantanal, Cerrado e Caatinga — justamente as regiões já afetadas pela estiagem neste ano. Esta diminuição das chuvas pode ter como explicação a volta do fenômeno La Niña.

Segundo a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), dos EUA, após um período de relativo equilíbrio atmosférico desde o início do ano, o La Niña se intensificará nas próximas semanas e não deve perder força até o outono de 2022, diminuindo as chuvas na América do Sul justamente no período chuvoso, responsável pela recarga de rios e aquíferos.

Onde está a água no Brasil

O Brasil possui 12% das reservas de água doce do planeta, constituindo 53% dos recursos hídricos da América do Sul. Existem 83 rios fronteiriços e transfronteiriços, assim como bacias hidrográficas e aquíferos. As bacias hidrográficas transfronteiriças ocupam 60% do território brasileiro.

O bioma com a maior área coberta por água no Brasil é a Amazônia, com mais de 10,6 milhões de hectares de área média, seguido pela Mata Atlântica (mais de 2,1 milhões de hectares) e pelos Pampas (1,8 milhão de hectares). O Pantanal ocupa a quinta posição, com pouco mais de 1 milhão de hectares de área média, atrás do Cerrado (1,4 milhão de hectares).