Monte Roraima enche de turistas e impacto ambiental preocupa

Montanha na fronteira entre o Brasil e a Venezuela tem sido mais procurada.
Visitantes chegam a 4 mil ao ano; passeios são a pé ou de helicóptero.

Da Reuters

Turistas descem o Monte Roraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)
Turistas descem o Monte Roraima, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Antes impenetrável para qualquer um que não os indígenas Pemon, o Monte Roraima, situado na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, tem atraído cada vez mais aventureiros modernos.

De topo plano e envolta por misticismo, a montanha de 2,8 mil metros de altura deixou exploradores do século 19 perplexos. Hoje, recebe vários milhares de escaladores por ano que vão em busca do trekking de três dias que passa pela savana, rios, debaixo de uma cachoeira e por um caminho estreito escalando os penhascos do monte.

O Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)
O Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Entre 3 mil e 4 mil pessoas escalam a montanha todo ano, enquanto alguns anos atrás eram centenas. Isso gera filas nos períodos de pico, perto do Natal e da Páscoa.

Helicópteros levam os turistas mais abastados, especialmente do Japão, até o topo.

“É um destino exótico e distante, então é ao mesmo tempo muito caro e muito atrativo”, diz o diplomata aposentado japonês Edo Muneo, de 68 anos, que teve que passar por um teste físico junto com outros compatriotas antes de deixar o Japão em direção a Roraima.

Lixo e problemas

Turistas japoneses se abrigam da chuva em uma formação rochosa no Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)
Turistas japoneses se abrigam da chuva em uma formação rochosa no Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Apesar de essas multidões serem bem-vindas para a cambaleante indústria do turismo venezuelana, elas também espalham lixo indesejado pela paisagem pré-histórica e danificam um delicado ecossistema.

O Roraima é considerado solo sagrado pelos Pemons e um símbolo espiritual para muitos outros venezuelanos. “O monte já foi mais solitário e inóspito”, diz Felix Medina, um guia de 59 anos que há mais de uma década leva pessoas para o topo da montanha.

Eu ainda amo esse lugar, mas há gente demais. Às vezes fica caótico”
Felix Medina, guia turístico

“Eu ainda amo esse lugar, mas há gente demais”, diz ele, com a panturrilha dolorida após levar dois grupos acima e abaixo do monte Roraima com a agência de viagens local Akanan. “Às vezes fica caótico”, diz.

Alguns amantes do monte Roraima querem que o governo, os operadores de turismo e os líderes locais Pemon criem regras para limitar o número de pessoas que podem subir ao topo diariamente. Eles também gostariam que as regras fossem aplicadas de forma mais estrita, para obrigar turistas e guias a recolherem todo o lixo com eles.

A venezuelana Cristina Sitja, de 42 anos, disse que ouviu falar do Roraima desde a adolescência e só conseguiu subir este ano. “Foi uma ótima experiência, mas triste também. Esperava que fosse mais tranquilo.”

Casas dos deuses

    Estrelas são vistas na região onde estão os montes Kukenan (esq.) e Roraima  (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

    Estrelas são vistas na região onde estão os montes Kukenan (esq.) e Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

    Na língua Pemon, as montanhas de topo plano no sudeste da Venezuela são conhecidas como “tepuis”, que significa “casas dos deuses”.

    Perto do Roraima fica Kukenan, outra tepui, famosa entre os indígenas por causa de ancestrais que cometeram suicídio pulando de lá.

    Membro do grupo indígena Pemon caminha no Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)
    Membro do grupo indígena Pemon caminha no Monte Roraima (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

    Fora da estação, as duas montanhas têm uma aura pacífica apropriada para uma das formações mais antigas da terra. No vasto platô do Roraima, há rochas torcidas e estranhas, formadas quando os continentes africano e americano se separaram.

    No clássico livro de 1912 “O Mundo Perdido”, do britânico Arthur Conan Doyle, dinossauros atacam um grupo de exploradores entre as rochas e os pântanos dessa paisagem fantasiosa.

    Os viajantes atuais podem ver sapos negros, libélulas e tarântulas que são únicas dessa montanha, além de plantas endêmicas.