Hospital Universitário tem semana caótica

Suspensão de alguns procedimentos na Santa Casa estaria agravando o problema

  NATALIA YAHN Pacientes estão aguardando a cirurgia nos corredores do Universitário - Foto: Bruno Henrique / Correio do Estado Com cirurgias eletivas e alguns outros procedimentos suspensos em decorrência de atrasos de salários de médicos na Santa Casa de Campo Grande, pacientes migram para outros  hospitais públicos, como o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS). Com isso, o hospital está lotado, com pacientes espalhados pelos corredores, aguardando por atendimento. O problema, que começou há três meses, agravou-se nesta semana. A área verde, por exemplo, onde há acomodações para somente três pessoas, estava com 40, muitos delas aguardando em cadeiras. Esse era o caso da estudante de arquitetura Andressa Silva Moura, 21 anos, que já esperava há oito dias. Ela fraturou o pé no dia 3 de abril, procurou a UPA e depois o Centro de Especialidades Médicas (CEM), onde foi informada que precisaria de uma cirurgia, e aguardou vaga em hospital. “Fiquei em casa, com o pé imobilizado. Aí, no dia 9, me encaminharam para o HU. Estou esperando a cirurgia, mas não tem previsão”, afirmou. Ela estava no corredor do Pronto Atendimento Médico (PAM) do Humap, que ontem tinha um total de 72 pacientes, 12 deles para atendimento de ortopedia. O local tem capacidade para atender apenas 26 pessoas. “Mas sempre estamos acima da capacidade. Queremos reformar o setor e, para isso, vamos atender somente o que está contratualizado a partir do próximo mês”, explicou o superintendente, Cláudio César da Silva. PARALISAÇÃO O superintendente de Relações Institucionais da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Antonio Lastória, disse que o problema não tem relação exclusiva com a paralisação dos médicos da Santa Casa. “A paralisação é basicamente de algumas especialidades eletivas. Não houve diminuição do fluxo. O hospital está funcionando normal. Queremos ampliar os procedimentos de média e alta complexidade, cirurgias eletivas na Santa Casa, com a ativação do Trauma. E no HU, teremos uma nova proposta de trabalho, com a diminuição do atendimento de ortopedia, que será encaminhado para o Trauma”. Apesar de a Sesau minimizar o problema e a Santa Casa não se posicionar sobre a questão, a reportagem apurou que a paralisação de algumas especialidades no hospital já dura aproximadamente três meses. O Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (SinMed-MS) foi comunicado oficialmente sobre a paralisação, assim como a própria Sesau e o Ministério Público (MPMS). “Realmente, a assistente social alegou que não estão fazendo esses procedimentos de cirurgia por motivo da grave, da paralisação, e que já faz uns três meses quase que os médicos estão parados”, afirmou a funcionária pública Antonia Pinheiro Lima, 55 anos. Ela é mãe de Sidney Lima de Morais, 34 anos, que está internado na Santa Casa desde o dia 14 de março e, por conta da paralisação do atendimento cirúrgico de algumas especialidades, não consegue realizar o procedimento que precisa. Morais tem de ser submetido a uma cirurgia no pulmão para retirada de um coágulo. “Meu filho teve pneumonia há um mês, foi internado e controlaram com medicação. Mas ele sofreu um acidente há quatro anos, descobriram abscesso no pulmão e por isso está com hemorragia. Os médicos que fazem cirurgia estão em greve há 90 dias. Pedi que fizessem a documentação falando o que está acontecendo para eu procurar a Justiça, porque só assim para resolver”. Laudo médico fornecido pelo hospital informa que o paciente “necessita de avaliação da cirurgia, seja neste serviço, ou em outro hospital”. Em outra parte do documento, o médico que assinou o laudo, Gilber Júnior Gouveia, diz que “o paciente necessita de avaliação e conduta da cirurgia torácica, no entanto, o hospital não dispõe deste serviço no momento por questões burocráticas”. A situação crítica do filho de Antonia já era de conhecimento da família desde quando ele foi internado. “Ele foi encaminhado da UPA Universitário e entrou no hospital. Fez uma tomografia, que constatou que precisava internar, estava muito mal. Só no andar da ala que meu filho está, tem mais quatro pessoas esperando cirurgia há vários dias”, disse Antonia. “Falaram que a gente pode ir para o HU, mas lá está superlotado. E ele vai ter que começar do zero de novo, ficar no corredor”. Médicos do hospital, que pediram para não ter o nome divulgado, confirmam que várias especialidades estão com as atividades prejudicadas. “Cirurgias foram suspensas de verdade, pois os cirurgiões só voltam a trabalhar depois dos salários em dia. Só atendem emergências e em último caso. Traqueostomias, os cirurgiões de tórax só realizam uma ao dia. A fila de espera é imensa. Enquanto não acontece [a cirurgia], os pacientes  ficam sedados e em respiração por aparelhos”, disse um profissional. Outro médico revelou que cirurgias cardíacas e atendimento dos casos do ambulatório e de eletivas estão todos suspensos. “Só faz atendimento de urgência, que nunca para. Mas a cirurgia geral, por exemplo, também suspendeu vários atendimentos. Vascular estava sem atender. Os salários dos autônomos e dos PJs [pessoas jurídicas] continua muito atrasado, três e cinco meses [respectivamente]”. Por conta dos atrasos, os profissionais acabam buscando outros empregos. “Mesmo com o atendimento que continua, muita coisa vai inviabilizando. Os médicos precisam produzir, fazer plantões em outros lugares para terem renda”.